A frase mais repetida por todos os que trabalham com a inclusão de pessoas com deficiência é: a inclusão é um processo. É o que falamos para nós mesmos e para nossos companheiros de estrada; em momentos de comemoração e também para nos animar frente a um aparente retrocesso. Essa sentença tem complementos, dos quais o mais frequente é o que compara nosso árduo trabalho ao das “formiguinhas”. Nesse caso, lembro sempre de uma observação de Rosangela Berman Bieler, jornalista e ativista do movimento das pessoas com deficiência no Brasil: “Torço para que, um dia, esse formigueiro tão grande, que construímos com tanto afinco, mas sem que a sociedade o visse, exploda como um vulcão, se espalhe por uma área enorme e seja visto por todos!”.

Falar que a inclusão é um processo significa dizer que ela muda à medida que avança, encontra dificuldades e pode dar passos para trás até descobrir outros caminhos – a partir da interação com as pessoas, com os fatos e com as circunstâncias de cada tempo e momento. Significa também dizer que ela nasce dentro de cada um de nós, mesmo naqueles que já se consideram “inclusivos”. Sempre temos algo a aprender. Há sempre mais uma fronteira para transpor. Se a inclusão da pessoa com deficiência é dinâmica, como ela está em 2017? Ainda é a mesma de quando surgiu, mais ou menos em meados da década de 1990?

Izabel Maior e Benilton Bezerra Jr. abordaram de forma brilhante a atual fase do modelo social da deficiência em um programa da série “Café filosófico” Site externo, exibido em 2016 pela TV Cultura. Em tom coloquial, Izabel inicia sua fala afirmando que a diversidade é intrínseca ao ser humano. A despeito desse fato, o que a história nos revela é que o convívio entre diferentes sempre foi difícil, seja na Antiguidade ou no mundo contemporâneo. Temos dificuldade em atribuir valor às diferenças, ainda que nosso mundo seja cada vez mais compartilhado. É difícil para nós “acharmos bonito o que não é espelho”, como Caetano Veloso sintetiza na famosa canção “Sampa”.

Ao não valorizar a diferença, atribuímos rótulos que muitas vezes inferiorizam pessoas, destacando apenas um de seus atributos – e geralmente de forma não elogiosa. Elas são identificadas e reduzidas a uma característica. Assim, a exclusão é imposta por uma sociedade supostamente feita para pessoas “normais”, seja lá o que isso queira dizer…

 

Do olhar médico ao social

O modelo médico, vigente até meados do século XX, considerava apenas a lesão, que resultava em deficiência. O olhar médico se considerava único e soberano. Em contrapartida, a pessoa com deficiência era reduzida à condição de paciente. Como tal, devia exercitar a virtude da paciência, pois era vista como vítima, alvo de infortúnio ou de tragédia pessoal. Inspirava piedade e dó – seus familiares a viam como “uma cruz” a ser carregada com resignação.

A crítica a esse paradigma veio das próprias pessoas com deficiência. Elas identificaram a confusão que era feita entre a lesão (situação objetiva) e a condição de deficiência, isto é, o modo como a lesão impacta a performance das pessoas na sociedade, que é uma experiência subjetiva. Essa atuação depende da interação entre as condições oferecidas pelo ambiente (entenda-se acessibilidade, no sentido mais amplo do termo) e as de funcionalidade da pessoa e de suas particularidades. A deficiência é, portanto, relacional, como define Izabel: ela não é o aspecto biológico, mas o resultado da interação entre indivíduo e sociedade.

O modelo social da deficiência introduziu os conceitos de autonomia e vida independente, que emergiram com ênfase como bandeiras de luta. Tornaram-se, também, uma filosofia e um movimento social, inicialmente na Califórnia, na esteira do movimento hippie, do rock, do Flower Power e da internet. É fácil entender a força e a sedução exercidas por essas ideias: após séculos – ou mesmo milênios – sem direito de expressar desejos, emoções e opiniões, dependendo da caridade e da boa vontade da igreja, da família ou de pessoas “de bom coração”, era chegado o momento das pessoas com deficiência soltarem o grito preso na garganta. De decidir o que fazer da própria vida – e como fazer.

 

A segunda fase do modelo social da deficiência

Adentramos agora a fase 2, segundo a análise de Izabel e Benilton: os valores da colaboração, da solidariedade, da interdependência e da complementaridade se fazem mais presentes, juntamente com o conceito de apoio. Afinal, todos precisamos de suporte, desde o nascimento até a velhice. “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo”, como bem sabia John Donne.

Os desafios são, agora, conjugar apoio e vontade própria; somar suporte e respeito à opinião, à capacidade de decisão e ao exercício de direitos e da cidadania. Esses são os próximos passos, as próximas fronteiras da inclusão.

Bem-vinda fase 2! Que você nos torne mais humanos e solidários.

 

Marta Gil é coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas Site externo, consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência, responsável pela concepção do DISCOVERY, primeiro jogo corporativo sobre inclusão, consultora da série “O futuro que queremos – Trabalho decente e inclusão de pessoas com deficiência” (OIT e Ministério Público do Trabalho), responsável pela elaboração da Metodologia SESI SENAI de gestão da inclusão na indústria, Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais. Autora dos livros “Caminhos da inclusão – A trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP”, “As cores da Inclusão – SENAI MA” e organizadora do livro “Educação Inclusiva: o que o professor tem a ver com isso?”, USP/Fundação Telefônica/Ashoka, prêmio Imprensa Social.

Fonte: http://diversa.org.br/artigos/quais-sao-desafios-inclusao-pessoa-deficiencia/

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