Portas abertas para a inclusão

Jovens com necessidades especiais participam de oficinas artesanais oferecidas por órgãos públicos e entidades não-governamentais. Neles, aprendem um ofício e ensinam que, também, podem ser independentes.

Há cerca de um mês e meio, a jovem Jéssica Barreiros, de 15 anos, conquistou um estágio remunerado e, por isso, está feliz da vida. Pode-se dizer que este é o seu primeiro emprego, já que o escritório de advocacia Freitas e Lopes Advogados Associados pretende efetivá-la em breve. Por enquanto, a garota trabalha como auxiliar administrativa e é responsável pela organização alguns documentos, separar o que pode ser excluído, transformar o material descartado em rascunho e operar a fotocopiadora.

Na maioria de seus afazeres, Jéssica recebe a orientação de outros funcionários atentos, com mais tempo de casa e que estejam por perto e dispostos a apoiá-la. Ela precisa desta ajuda mais do que a maioria das garotas de sua idade. Isso porque é uma jovem com Síndrome de Down, que não é uma doença, mas uma diferença genética causada por um número superior de cromossomos.

Porém, o ingresso de Jéssica em um escritório só foi possível após uma boa preparação semiprofissionalizante, que recebeu no projeto Ser Eficiente, da Escola de Educação Especial 30 de Julho, mantida pelo Centro Espírita Beneficente 30 de Julho, em parceria com a Prefeitura Municipal de Santos. Lá, assim como os outros 160 alunos da instituição, ela é livre para participar de oficinas, como marcenaria, pintura e corte e costura.

Os resultados materiais destas oficinas são artesanatos feitos em um trabalho cooperado, em que cada aluno realiza uma etapa do produto até o seu estágio final.

Enquanto o atento Marco Ricardo da Silva, de 17 anos, corta com muito cuidado um pedaço de madeira na serra tico-tico, da oficina de marcenaria, Cleverton José lixa uma peça, cortada anteriormente por Marco, até que ela fique lisa, sem nenhuma ranhura. Após este minucioso tratamento, as caixinhas e jogos pedagógicos de madeira são encaminhados à oficina de pintura, onde os alunos dão o toque final nos objetos.

Nestas oficinas eles não ficam parados. Estão sempre transformando, com uma paciência e talento invejáveis, tecidos e madeira em belos e criativos artesanatos e jogos pedagógicos. São bonecos, caixas de madeiras, almofadas de fuxico, jogos da velha e damas, entre outros artigos, todos com acabamento impecável.

Além dos resultados materiais, estas oficinas colaboram para o desenvolvimento mental e da coordenação motora destes jovens.

“Com as tarefas, nossos alunos desenvolvem não apenas o convívio social, mas também a coordenação motora, o raciocínio lógico e o pensamento crítico, uma vez que eles decidem as cores e formas de suas produções”, explica a professora de corte e costura artesanal Rosângela Dalcin David.

Carmelita – Assim como o Projeto Ser Eficiente, a Prefeitura de Santos também oferece cursos semiprofissionalizantes para portadores de deficiências. É na Unidade Municipal de Ensino Especial Professora Maria Carmelita Proost Vilaça que crianças e jovens, de 6 a 18 anos, participam de diversas oficinas. “Aqui eles fazem o que querem, porém dentro de suas limitações. Se uma criança não é apta a freqüentar o curso de marcenaria, sugerimos a ela que curse as oficina de pintura ou bijuarte”, explica a diretora da escola, Magda Aparecida Bernardes da Silva.

O objetivo destes cursos extracurriculares não é apenas a preparação dos jovens para o trabalho. A diretora conta que as crianças que possuem um déficit intelectual dificilmente desenvolverão todos os conteúdos que uma pessoa dita normal atinge: “90% dos nossos alunos não terão um nível mental próximo das pessoas comuns. No entanto, a nossa preocupação não é apenas o ensino acadêmico. Trabalhamos para que estes jovens tenham uma vida social normal. Quando saírem daqui, muitos deles poderão casar, ter filhos e uma profissão. A gente, aqui, não se preocupa somente com a formação acadêmica, mas, também, com a independência deles como ser humano. Por isso nossa escola tem uma pedagogia dinâmica e toda especial”.

Esta forma de ensino diferenciada é fundamental para que o ritmo de cada criança seja respeitado. E, para que a aprendizagem dos jovens se desenvolva de modo mais fluente e natural, os conteúdos das disciplinas são adaptados e unidos a outras atividades.

“Durante as aulas, que acontecem de manhã e à tarde, uma vez por semana, nossos alunos passam por aulas de expressão corporal, meio ambiente, artesanato e informática, entre outras. Isto porque as crianças deficientes não têm facilidade na abstração. Assim, temos que concretizar a ação para que elas compreendam a matéria”, afirma a diretora do Carmelita.

Ela fala ainda que todo o trabalho realizado pela escola visa à inclusão social e ao ingresso destes jovens nas ditas escolas regulares. “Lutamos para que nossos alunos retornem às escolas regulares. Por isso, fazemos avaliações para detectar se uma criança está apta para voltar ao ensino regular. Aí, fazemos uma reunião de professores e, depois, conversamos com os pais do jovem.

Loja – No dia 28 de setembro foi inaugurada a loja Molekagem, que beneficiará os 160 jovens até 26 anos atendidos pela Escola de Educação Especial 30 de Julho. A maioria dos artigos comercializados na loja são aqueles feitos em conjunto pelos alunos do Projeto Ser Eficiente.

Na loja Molekagem, a inclusão acontece de modo amplo. Alguns jovens com deficiência foram escolhidos para praticar as funções de atendente em vendas, recepção, controle de estoque e operador de fotocopiadora. Após um certo tempo de treinamento, eles estagiarão em empresas que apóiam o projeto, como Petrobras, Fertimport, Indaiá Logística, Meca Transportadora, Meca Mosaic, e Freitas e Lopes Advogados Associados. E, como no caso de Jéssica, se o aluno corresponder às expectativas da empresa e se mostrar apto a exercer a sua função, certamente será contratado.

Inscrições – As aulas e oficinas são gratuitas. A inscrição pode ser realizada por telefone ou na sede da escola, que fica na avenida Senador Feijó, 513, Santos, telefone 3223-1082.

No Carmelita, as inscrições devem ser feitas por meio da Secretaria Municipal de Educação (Seduc), telefone 3211-1818.

Fonte: http://www.jornaldaorla.com.br/noticias/9859-portas-abertas-para-a-inclusao/

Write a Reply or Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *