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Se você, leitor, achava que pessoas com deficiência não podiam participar de um desfile de moda, ledo engano. Nesta sexta-feira (1), o Parque Olímpico vai receber, na 1ª Feira da Pessoa Com Deficiência realizada no Rio de Janeiro, um desfile com 50 participantes, com 45 representantes de diversos segmentos: cadeirantes, pessoas com problemas motores, deficientes visuais, entre outros.

Natache Yamaiá da Rocha Gomes, hoje com 35 anos começou a ter problemas de coordenação motora aos 14. Com vergonha, tentava esconder dos colegas, mas as dores aumentavam. Aos 18, depois de muitos exames inconclusivos, o exame genético revelou: Natache é portadora da Ataxia de Friedreich, uma doença degenerativa e hereditária que causa perda de controle dos músculos. Ainda não foi encontrada uma cura para a doença. Porém, com vontade de viver e “sem coitadismo”, como ela mesmo define, será uma das principais modelos da coleção de moda inclusiva da estilista Silvana Louro.

“Eu estou muito feliz em participar desse projeto. Eu acho que deve ser ampliado não só no Rio mas no Brasil todo. Tem que fazer porque a gente tem público participando, porque as pessoas se divertem em um evento desse porte, tem que pensar assim”, disse Natache.

Silvana, que assina uma linha de roupas da marca Equal (de igual, em inglês) Moda Inclusiva, diz que além das pessoas com deficiências, há pessoas também sem problemas do mesmo tipo. O objetivo, segundo ela, é gerar uma sensação de inclusão.

“Marcelo Salles me convidou para fazer um desfile de moda inclusiva: todas as deficiências estão contempladas: nanismo, Síndrome de Down, cadeirantes, pessoas com paralisia cerebral, deficientes visuais e auditivos. Cinco pessoas não têm deficiência, e acho importante gerar essa inclusão. É uma experiência totalmente sensorial, e é uma maneira de tirar a pessoa com deficiência da invisibilidade no mercado da moda”, explicou Silvana.

Vivem 4 milhões de deficientes no Estado do Rio, de acordo com dados do Censo do IBGE de 2010. A Feira da Pessoa Com Deficiência, realizada no Parque Olímpico entre esta sexta-feira (1) e domingo (3) traz oportunidades e negócios criados por e para pessoas com deficiência, em diversos segmentos, inclusive na moda.

Silvana trabalha com o assunto desde 2009, quando foi fazer trabalho voluntário fora do Brasil depois de “se cansar” do mundo da moda tradicional. “Percebi dificuldade muito grande no vestir, nas necessidades básicas, e meu olhar fez com que eu pensasse em criar um uniforme para as Paralimpíadas Escolares, e aí comecei a pesquisar. Isso ressignificou toda a minha vida. O projeto acabou, mas o legado disso continua”, afirmou ela, que trabalha para um projeto ambicioso: ter uniformes adaptados para toda a delegação paralímpica que vai a Tóquio em 2020.

‘Eu só vivo’

Quando descobriu que tinha a doença, Natache diz ao G1 que ficou muito deprimida por muito tempo. “Com o tempo, quando a gente começa a ler, entender a doença, eu falei: minha vida acabou. Eu realmente não sei de onde eu tirei forças. Eu vivia em depressão, e completamente enclausurada, não queria sair, queria ficar no meu quarto. Aí um dia eu falei: ‘ah, não quero mais isso não’, e foi assim. Aí eu voltei para academia, conheci meu namorado, fiz alguns eventos como modelo”, relata ela, que no ano passado fez parte de um desfile internacional de pessoas com deficiência em Milão, na Itália, através do projeto Modelle Rotelle.

Projeto Modelle Rottelle, pelo qual Natache desfilou em Milão em 2016 (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)Projeto Modelle Rottelle, pelo qual Natache desfilou em Milão em 2016 (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Projeto Modelle Rottelle, pelo qual Natache desfilou em Milão em 2016 (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

“Eu achei desfilar incrível. É muito legal eu ter essa possibilidade, talvez se eu fosse uma modelo andante eu não conseguiria. Como cadeirante eu fui convidada a desfilar fora do país, num desfile super suntuoso, e foi muito importante para o Brasil porque eu era a primeira representante do Brasil em um desfile desse porte, e para mim porque eu provei que sou capaz de fazer coisas inimagináveis“ , relembra ela.

Natache é embaixadora de uma organização que busca conectar e buscar alternativas de tratamento para vítimas da Ataxia, a Friedreich’s Athaxia Research Alliance (Aliança para pesquisa da Ataxia de Friedreich, em inglês). O preconceito, segundo ela, se materializa em problemas e situações constrangedoras em bancos e transportes.

“Eu já processei muitas empresas, e já passei por muitas situações em que me senti humilhada: com taxistas, na porta de banco. Vários taxistas já se recusaram a me levar”, afirma.

Uma das faces mais silenciosas e dolorosas do preconceito, no entanto, é nas relações sociais, seja de amizade ou românticas. “A gente percebe que aquelas pessoas que a gente acha que nunca vão se afastar da gente se afastam. No caso da Ataxia em si, no mundo todo, o que as pessoas mais reclamam é a dificuldade de encontrar um par”, relata ela, que se considera privilegiada por ter um namorado há mais de um ano. Ele, que mora em outro estado, também possui a doença, porém de uma forma mais branda. Os dois, de acordo com ela, se relacionam como qualquer casal: saem, se divertem e procuram aproveitar o tempo quando estão juntos.

Natache e o namorado. Natache e o namorado.

Natache e o namorado. “Maior dificuldade é encontrar um par. Ele é um presente” (Foto: Natache Yamaiá/Arquivo Pessoal)

“A mãe dele meio que foi nossa cupida. A mãe dele e meio que Madrinha dos Friedreich. Ela começou com essa procura, me conheceu e trouxe o filho. Ele veio aqui, a gente saiu, conversou, aí já surgiu um coraçãozinho. A gente começou a sair mais vezes e decidiu namorar”, conta ela, com um sorriso no rosto.

Da vida privada para a pública

Vereadora Luciana Novaes é a primeira vereadora tetraplégica eleita no Rio de Janeiro (Foto: Henrique Coelho/G1)Vereadora Luciana Novaes é a primeira vereadora tetraplégica eleita no Rio de Janeiro (Foto: Henrique Coelho/G1)

Vereadora Luciana Novaes é a primeira vereadora tetraplégica eleita no Rio de Janeiro (Foto: Henrique Coelho/G1)

Duas datas são marcantes na vida de Luciana Novaes, hoje com 33 anos: o dia 5 de maio de 2003, quando foi atingida por um tiro disparado por traficantes do morro do Turano, no Centro, e ficou com os movimentos paralisados do pescoço para baixo; e o dia 1 de janeiro de 2017, quando assumiu a cadeira como a primeira vereadora tetraplégica do do Rio de Janeiro. O objetivo dessa missão, segundo ela, é tirar as pessoas com deficiência da invisibilidade.

” É um desafio muito grande para o deficiente viver no Rio de Janeiro porque não existe política pública para a pessoa com deficiência, e as que já existem não funcionam. Para mim, foi uma mudança, aqui dentro eu posso dar mais voz para a pessoa com deficiência. Só de eu estar aqui dentro, eu acho que já dá mais visibilidade. Infelizmente, ainda somos invisíveis para uma parte da sociedade”

Vereadora atuante em fiscalizações da infraestrutura de transportes da cidade, Luciana vai participar da abertura da Feira da Pessoa com Deficiência. ” A gente quer ter acesso plenamente à cidade, ter direito a tudo: esporte, cultura, lazer, e essa feira vai trazer isso”, ressalta. Segundo Luciana

” Nós temos leis, mas infelizmente elas não saem do papel. Os ônibus ainda têm uma grande dificuldade para lidar com pessoas com deficiência. Alguns motoristas, quando veem que somos cadeirantes, nem param. Mas a culpa não é de todos. A Supervia foi multada pelo Procon Estadual, mas para conseguirmos entrar na estação Riachuelo, os agentes tiveram que carregar os cadeirantes nos braços, e outros na própria cadeira, mas isso é um risco muito grande”, lembra a vereadora, que não poupa nem a própria câmara municipal de críticas.

A casa legislativa fez uma rampa improvisada para que Luciana Novaes pudesse tomar posse no dia 1 de janeiro deste ano. O detalhe: em cima de um piso táctil, utilizado por deficientes visuais que utilizam bengalas para andar pela região da Cinelândia. O G1 contabilizou o tempo para que a vereadora chegasse ao local: 1minuto e 36 segundos.

A Câmara Municipal do Rio não respondeu ao G1 até o fechamento desta reportagem.

Pouca acessabilidade

Banheiros foram adaptados e uma plataforma elevatória foi construída no segundo semestre. Na Alerj, a acessibilidade dificulta até a movimentação do atual presidente da assembleia, o deputado Wagner Montes, como mostrou o G1 “Aqui é a casa do povo. Se é a casa do povo, todos teriam que ter acesso. Estamos brigando para que a rampa que está na frente da casa seja uma rampa permanente, e pela porta da frente. E eu não estou brigando só por minha causa. A pessoa com deficiência tem que ter os seus espaços garantidos. “

Segundo o IBGE, os casos mais frequentes são de pessoas com deficiência visual, seguido de deficiência motora, auditiva e mental/intelectual. O subsecretário da Pessoa com Deficiência, Geraldo Nogueira, concorda com Luciana Novaes quando ela afirma que houve poucos avanços na questão de acessibilidade no Rio de Janeiro.

” Pouco se avançou, mesmo com grandes eventos. O que nós percebemos é que a acessibilidade só foi cuidada no entorno dos locais de jogos. A única coisa que tivemos um ganho foi no BRT e no VLT, que eu considero com acessibilidade boa e excelente”, diz Nogueira.

Com a crise econômica, Nogueira afirma que não é possível fazer grandes gastos. “Criamos uma comissão permanente de acessibilidade, com 32 técnicos na área, com conhecimento de acessibilidade nas secretarias da prefeitura e membros da sociedade civil, como UFRJ, CREA.

Para 2018, a prefeitura tem dois projetos para a área de acessibilidade: o Rota Acessível, para ligar pontos de transporte público até locais de lazer, de cultura. Com a secretaria de urbanismo, está previsto o programa Conecta Rio, que visa fazer transformações em áreas urbanas degradadas para transformá-las em locais bons e acessíveis para todos os públicos, incluindo o de Pessoas com Deficiência. A área da Central do Brasil, por exemplo, seria totalmente transformada.

“Seria como a região do Boulevard Olímpico, acessível, que gerasse maior segurança. Seria uma área urbanizada e acessível”, afirmou Geraldo, citando também ações com a OAB e a Riotur em locais como Bondinho do Pão de Açúcar, AquaRio e outros pontos turísticos. “Nossa missão não é apontar falta de acessibilidade, mas causar nesses pontos um compromisso com o turismo da pessoa com dificuldade de locomoção”, explicou ele.

A prefeitura tem como ambição criar um aplicativo para dar informações sobre acessibilidade em diversos pontos da cidade. “Estamos procurando empresários para conseguir fazer isso. Seria possível com informações do usuário, do próprio ponto e da comissão permanente de acessibilidade”, explica ele.

Obra de acessibilidade é inaugurada em calçadas do Centro do Rio em 2016; para subsecretário, maior parte de obras ficou em entorno de arenas (Foto: Janaína Carvalho / G1)Obra de acessibilidade é inaugurada em calçadas do Centro do Rio em 2016; para subsecretário, maior parte de obras ficou em entorno de arenas (Foto: Janaína Carvalho / G1)

Obra de acessibilidade é inaugurada em calçadas do Centro do Rio em 2016; para subsecretário, maior parte de obras ficou em entorno de arenas (Foto: Janaína Carvalho / G1)

Supervia multada

Em nota a Supervia informou que foi multada pelo Procon estadual e apresentou recurso.

Sobre a modernização nas estações para melhor acessibilidade, a concessionária enviou a seguinte nota:

“O processo de modernização das estações dos trens do Rio faz parte do acordo firmado entre a concessionária e o Governo do Estado para melhorias em todo o sistema ferroviário. As obras das estações, que não recebiam investimentos há quatro décadas, foram iniciadas em 2012 e seguirão de acordo com as prioridades avaliadas pela concessionária.

No ano passado, seis estações receberam obras de revitalização para atender aos padrões internacionais de acessibilidade. As estações São Cristóvão, Olímpica de Engenho de Dentro e Deodoro passaram a contar com equipamentos de acessibilidade, como elevadores, escadas rolantes, rampas de acesso e piso tátil. A SuperVia também realizou obras de melhorias nas estações São Francisco Xavier, que recebeu plataformas elevatórias, e na estação Madureira, que passou a contar com elevadores, rampas e escadas rolantes. Além dessas, as estações Maracanã, Piedade, Cascadura e Quintino também são acessíveis. As estações Triagem, Santíssimo e Belford Roxo também receberam obras de melhorias, como rampas e piso tátil.

Vale ressaltar que, ciente de que o sistema ferroviário conta uma infraestrutura construída há mais de 150 anos, e em atenção aos passageiros que necessitam de apoio, a concessionária adota as regras de acessibilidade assistida com funcionários treinados e capacitados para prestar auxílio imediato em todas as estações.”

Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/parque-olimpico-recebe-evento-de-moda-inclusiva-para-pessoas-com-deficiencia.ghtml

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